Cento e um reais. Só isso. Todo dia, quando ia às compras, Delia gastava pouco. Comprava a carne e os vegetais mais baratos. E, mesmo quando estava fatigada, ela visitava as lojas para encontrar a comida mais barata. Economizava cada centavo possível. Delia novamente contava o dinheiro. Não havia erro. Cento e um reais. Só isso. No dia seguinte era Natal. Ela nada podia fazer. Só lhe restava sentar-se e chorar. Então, ela se sentou na pobre salinha e chorou. Delia morava nesse pequeno lugar, em Nova Iorque, com o esposo, James Dillingham Young. Eles também tinham um quarto, uma cozinha e um banheiro, pequenos e pobres cômodos. James ainda era sortudo, pois tinha um emprego, apesar de não ser bom. Esses cômodos consumiram quase todo seu dinheiro. Delia procurava trabalho, mas os tempos eram ruins, e ela nada conseguia. Mas quando o esposo veio para casa, Delia o chamou de “Jim” e o abraçou. E isso foi bom, pois ela parou de chorar e limpou o rosto. Ela ficou à janela e fixou o olhar em um gato cinza de um muro de uma estrada cinzentos. No dia seguinte seria Natal, e tinha ela apenas cento e um reais para comprar um presente para o esposo. O “Jim” dela. Ela desejava dar-lhe algo bom que poderia mostrar-lhe o quanto ela o amava. Subitamente, Delia virou-se e dirigiu o olhar para o vidro que havia no muro. Seus olhos brilharam. Agora, o esposo tinha duas coisas muito especiais. Uma era o relógio de ouro que pertencera ao pai e antes disso ao avô. A outra coisa especial eram os cabelos de Delia. Rapidamente, ela soltou suas belas e compridas madeixas. Elas cobriam as costas e eram como se fossem um casaco. Depois, rapidamente, prendeu-as novamente. Por um ou dois segundos, ela se acalmou e chorou um pouco. Depois, vestiu o velho casaco marrom e colocou o chapéu da mesma cor, virou-se e saiu da sala. Desceu para a estrada, e seus olhos brilharam. Passou por algumas lojas e parou numa porta onde se lia “Senhora Eloise – Cabelos”. Lá dentro, havia uma mulher obesa, que em nada se parecia com uma “Eloise”. “A senhora gostaria de comprar meus cabelos?”, Delia perguntou. “Eu compro cabelos”, disse a senhora. “Tire o chapéu e mostre-me seus cabelos”. Então, caíram de Delia os lindos cabelos castanhos. Tocando a linda cabeleira, a senhora disse “Cem reais”. “Rápido, corte os cabelos e dê-me o dinheiro”, disse Delia. As próximas duas horas passaram rapidamente. Delia se alegrou por visitar as lojas em busca de um presente para o esposo. Finalmente, ela o achou. Era uma pulseira de ouro para o relógio. Jim o amava, apesar de não ter pulseira. Quando Delia viu a pulseira, logo percebeu que serviria para Jim. Ela resolveu comprá-la. Pagou à loja cento e um reais e rapidamente se dirigiu a sua casa, com o restinho do dinheiro. Lá chegando, olhou no espelho o resto de suas tranças. “O que farei sem elas?”, pensou Delia. Na próxima meia hora, ela se manteve ocupada. Depois, olhou-se novamente no espelho. Seus cabelos agora eram pequenas tranças. “Oh, querida, você se parece com uma colegial”, disse a si mesma. “O que Jim dirá quando me vir?”. Às 19 horas, o jantar estava pronto, e Delia esperava o esposo. “Espero que ele ainda me ache bonita”, ela pensou. A porta se abriu, Jim entrou e fechou-a. Ele parecia muito magro e precisava de um casaco novo. Seus olhos miravam Delia. Ela não pôde entender o olhar dele e ficou temerosa. Ele não parecia raivoso ou surpreso. Encarou a esposa com um olhar estranho. Delia correu na direção dele. “Jim”, ela gritou, “não me olhe deste jeito. Eu vendi meus cabelos para lhe dar um presente. Logo eles crescerão novamente. Eu tive de fazê-lo, Jim. Por favor, diga-me ‘Feliz Natal’. Eu tenho um lindo presente para você.”. “Você cortou seus cabelos?”, Jim perguntou. “Sim, eu os cortei e vendi”, disse Delia. “Você não me ama mais, Jim? Eu ainda sou a mesma”. Jim olhou em redor da sala. “Você diz que seus cabelos foram embora?”, disse ele quase grotescamente. “Sim, eu lhe disse”, Delia respondeu, “pois eu o amo. Posso servir o jantar agora, Jim?”. Subitamente, Jim abraçou a esposa. Então, tirou algo do bolso e o colocou na mesa. “Eu a amo, Delia. Não importa que seus cabelos estejam compridos ou curtos. Mas se você abrir o embrulho, perceberá por que a princípio eu parecia chateado”. Excitada, Delia abriu o pequeno embrulho e deu um pequeno grito de felicidade. Um segundo depois, houve gritos de infelicidade. Lá, havia os pentes para seus lindos cabelos. Quando ela viu esses pentes pela janela da loja, quis comprá-los. Eram pentes lindos e caros, e agora pertenciam a ela. Mas ela já não tinha os cabelos. Delia apanhou os pentes e os segurou. Seus olhos encheram-se de amor. “Mas logo meus cabelos crescerão novamente, Jim”. Então ela se lembrou de algo. Saltando e gritando, ela levantou-se para apanhar o presente do esposo e o entregou a ele. “Não é lindo, Jim? Procurei-o por toda parte. Agora você vai querer olhar para seu relógio centenas de vezes por dia. Dê-me seu relógio, Jim! Vamos vê-lo com a nova pulseira”. Mas Jim não lhe respondeu. Ele sentou-se, pôs as mãos na cabeça e sorriu. “Delia, vamos guardar nossos presentes por algum tempo. Eles são maravilhosos. Veja, eu vendi o relógio para comprar seus pentes. Agora, vamos jantar”...


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