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Livro. É muito bom conhecer algum clássico da literatura. E quando esse livro faz referência à terra natal a emoção aumenta. Independente da época. ‘‘A Vila do Patrocínio está em uma das mais lindas e aprazíveis situações. Ocupa o alto e os lançantes de uma colina de pendor suave, encostada de um lado ao topo de uma serra, e gozando pelos outros lados da mais risonha e extrema perspectiva de largos e formosos horizontes.’’ Assim, o notável e imortal da Academia Brasileira de Letras, escritor Bernardo Guimarães, descreve, inicialmente, Patrocínio em seu livro O Garimpeiro (1872). Nesse capítulo sobre a cavalhada, Bernardo, que muito bem conhecia o Município, narra a festa que ocorria no Largo da Matriz (de N. S. do Patrocínio), cuja vila mal ia até onde é hoje a Praça Honorato Borges. O centro era o eixo Largo da Matriz - largo onde é hoje a Praça Tiradentes (antiga cadeia pública). A sinopse do livro, mais citações, descrições do município antigo e razões da intimidade de Bernardo Guimarães com a terra de seu outro ídolo, o célebre Índio Afonso, fazem parte da cultura patrocinense oculta. Ou pouco sabida.

*** A VISÃO DA REGIÃO POR GUIMARÃES - A paisagem existente entre Patrocínio, Araxá e Bagagem (hoje Estrela do Sul) encantava o escritor. ‘‘Quem uma vez tenha percorrido esses férteis e pitorescos sertões nunca mais os perde da lembrança’’, escreve Guimarães em ‘‘O Garimpeiro’’. A casa do personagem Major, no romance, situava-se entre Patrocínio e Bagagem, em um maravilhoso vale. No sertão qualquer fazendeiro abastado tinha um elevado posto na Guarda Nacional. Por isso, a história de Patrocínio mostra número expressivo de coronel, capitão, major e capitão. Todos homenageados pelo Império.

*** CAVALHADA, TIPO PORTUGUESA - Nessa época, Patrocínio já era festeira. As casas da vila eram insuficientes para abrigar tanta gente, vinda das fazendas e arraialetes, distantes, no máximo, 10 léguas (60km), que ficavam despovoados nos dias de festas. A arena, onde ocorriam as cavalhadas, era no meio do largo da Matriz, o centro socioeconômico do Município. A cavalhada tornara-se a maior festa de então. Ranchos improvisados e cobertos de capim, rapazes montados em lindos poldros ou em mulas ajaezadas de prataria desfilando pelas poucas ruas da vila. Isso é o primeiro cenário para o romance.

*** RESUMO DO LIVRO - A obra de Bernardo Guimarães ‘‘O Garimpeiro’’ é dividida em dezessete capítulos. Com cenas reais e cenas criadas pelo autor, similar à outra fantástica obra ‘‘O Índio Afonso.’’ A razão maior da história/romance é o amor/paixão entre o peão Elias, humilde, de Uberaba, e a bela jovem, filha de importante fazendeiro de Patrocínio. Tendo a maravilhosa paisagem e as dificuldades da vida no garimpo, como palco da narrativa. Elias ama e deseja se casar com Lúcia. Mas para conquistar o direito de ser o marido de Lúcia, ele troca o duro trabalho de peão pela vida de riscos nos garimpos da região de Patrocínio. Esses garimpos se localizavam basicamente onde é hoje Coromandel e Estrela do Sul. Ambos os municípios pertenceram ao município de Patrocínio, naquela ocasião.

*** MAIS CONTEÚDO - O livro, romance de ficção regional, narra a vida sertaneja, com os seus hábitos e costumes bem mineiros. Por isso, é uma bem sucedida história sobre os garimpos e as festas de Patrocínio. A natureza, que os patrocinenses das recentes e atuais gerações a dilapidaram, é descrita com riqueza. Esse romance é um dos livros que deram origem ao ‘‘Regionalismo’’, na literatura brasileira.

*** ALGUMAS PALAVRAS USADAS À ÉPOCA - Janta (falada até hoje pelos mineiros) ao invés de jantar. Cavalo doutrinado no lugar de cavalo ensinado. Mequetrefe (trapaceiro, sem valor), grupiara (depósito de cascalho em local elevado), pinta (na mineração), etc.

*** PRINCIPAIS PERSONAGENS - Os patrocinenses Lúcia e o seu rico pai, Major. O jovem e pobre uberabense Elias. Leonel, um moço trapaceiro, ex-noivo de Lúcia. Simão, amigo rico de Elias, que ao morrer, deu diamantes para ele (Elias).

*** RAZÕES DE BERNARDO GOSTAR DE PATROCÍNIO - O escritor/poeta, natural de Ouro Preto (capital de Minas Gerais) foi juiz em Catalão, em duas oportunidades, entre 1852 a 1864. Para tanto, usava a famosa Picada de Goiás, uma estrada para tropeiros. Em Patrocínio, hospedava-se na Pousada da Rua das Pedras, pertencente à Antônio Alves de Oliveira, localizada na região do ribeirão Rangel, onde é hoje o começo do Bairro Morada Nova. Em 1852/1853, o seu irmão foi juiz na Vila de N. S. do Patrocínio, cujo nome era Joaquim Caetano da Silva Guimarães. Com tanta afinidade, Bernardo Guimarães, colocou Patrocínio em duas de suas grandes obras: ‘‘O Garimpeiro’’ e ‘‘Índio Afonso’’. Verdadeiros bestsellers. Dois romances onde se misturam a realidade e a idealidade.


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