PRIMEIRA COLUNA. DELEGADO E JUIZ FAMOSO SAÍRAM CORRENDO DE UM ARRAIAL PATROCINENSE

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Capela N.S. do Rosário - Estrela do Sul MG de 1870. Foto: Ipatrimonio

Batalhas. A história de Patrocínio registra algumas delas. Na verdade, foram doze. Essas batalhas também eram chamadas de sedições (revolta, rebelião) e fogos, principalmente. O primeiro ocorreu por volta de 1830, quando Patrocínio e Araxá ainda faziam parte do município de Paracatu do Príncipe. Em 1855, houve o “Fogo do Mundim”, liderado pelo primeiro mandatário (prefeito) patrocinense, capitão o Francisco Martins Mundim. Muitas pessoas morreram nessa violenta luta. Em 1857, e 1868, aconteceram no Largo do Rosário (Praça Honorato Borges) intensos tiroteios entre patrocinenses (60 pessoas) e patenses (140 pessoas armadas), pois Patos desejava emancipar-se (que ocorreu em 1868). Entre 1842 e 1860, outros “fogos” destacaram-se na Picada de Goiás (estrada para tropeiros que ligava Pitangui-Patrocínio-Bagagem-Goiás). Nesses fogos houve vitórias da gente de Patrocínio (milícia) sobre bandoleiros, que não davam paz aos comerciantes e compradores de diamantes e ouro, usuários da Picada. Todavia, um fogo, uma conturbação, é pouco conhecido. É o “Fogo do Vieira”, que aconteceu em Estalagem (Estrela do Sul) pertencente ao grande município da Vila de Nossa Senhora do Patrocínio. Isso em 1852.

 

DISTRITO DIAMANTINO DE PATROCÍNIO – Um ano antes de ser encontrado o famoso diamante Estrela do Sul, que ocorreu em julho de 1853, a localidade denominada Cachoeira (hoje, Estrela do Sul), à beira do Rio Bagagem, tinha intensa movimentação. Garimpeiros de todo Brasil e até do exterior viam na região os seus sonhos de riqueza. Havia casas de comércio para todo lado. Um era o comércio do Rufino, pertencente ao capitão Rufino Mundim, a uma légua (6km) de Cachoeira. Em volta dos comércios existiam aglomerações (casas), ao longo do Rio Bagagem.

 

OS HOMENS DA LEI – Dr. Joaquim Caetano Guimarães era o Juiz Municipal da Vila e Município de N. S. do Patrocínio. Era irmão do também Juiz em Catalão-Go, e fantástico escritor, Bernardo Guimarães que, por diversas vezes, esteve em Patrocínio. Um de seus principais livros, “O Garimpeiro”, focaliza Patrocínio, Araxá e Bagagem (pertencia ao município de Patrocínio). O delegado de Polícia era Francisco Vieira Brabo, possuindo ligações com a sede do grande município (Patrocínio). Botava medo e respeito em todo território patrocinense.

 

A FAGULHA DA REVOLUÇÃO – Por volta de 15 de fevereiro de 1852, o juiz Joaquim Guimarães deslocou-se até Cachoeira, acompanhado de praças do Exército. O objetivo era arregimentar jovens para o Exército Nacional. Todavia, tudo em vão. Ninguém aceitou ser recruta. Enfim, nenhum jovem aceitou se apresentar, apesar dos reiterados convites. Em consequência, dia 23 de fevereiro de 1852, um domingo, um sargento e alguns praças compareceram no comércio do Rufino. E aí, prenderam diversos rapazes daquele lugar, levando-os para Cachoeira. Justamente para o quartel, onde o Juiz Guimarães e o Delegado Vieira Brabo aguardavam a turma que não queria ser do Exército.

 

MAIS PRISÕES... CLIMA DE GUERRA! – Essa prisão de jovens, no vilarejo, no comércio do Rufino, gerou indignação. Capitão Rufino tentou negociar, mas sem sucesso. Como resposta à insatisfação, no domingo seguinte, 1º de março de 1852, o rigoroso delegado de Polícia, Vieira Brabo, enviou, novamente, ao comércio do Rufino, um sargento e, dessa vez, 16 praças, para prender todos, todos mesmo, os jovens com idade de servir ao Exército. E junto a eles, enviou também um homem, e uma besta carregada de embiras, para ir amarrando os mocinhos, à medida que fossem presos. Entretanto, a população se reuniu, armou-se, e expulsou os policiais do comércio. Dessa vez, as prisões não aconteceram. As embiras ficaram. Pois, a enfurecida população mandou o recado de que as embiras serviriam para dar uma surra (aplicando nas costas) no temido Delegado.

 

... AGORA O “BICHO VAI PEGAR” – No outro dia, 2 de março, todo o povo do Rufino armado, calculado em 500 homens, partiu para Cachoeira (hoje, Estrela do Sul) com o fim de atacar o quartel e soltar os jovens presos. À noite, ocorreu a “batalha final”. Nela, morreram diversos soldados, inúmeros “guerreiros” do Rufino, e o delegado Vieira até matou por engano o seu companheiro João Tolentino. Além disso, havia centena de feridos. Com muito sangue, derramado, os populares do Rufino se retiraram, porém com a vingança prometida, para o dia seguinte, dia 3 de março.

 

... SOLDADOS FOGEM... – Nesse dia (3 de março), bem cedo, Vieira Bravo (Brabo) ordenou aos soldados para amarrarem os presos, dois a dois, com embiras. E que a marcha deles se iniciasse rumo a Patrocínio (sede do município). Entretanto, com muito medo da turma de Rufino, os soldados e alguns particulares armados da comitiva militar correram e deixaram os presos sozinhos com o delegado. Com arma, ameaças e sem descanso rumaram apressadamente para Patrocínio. Com um pouco de atraso, a população de Rufino chegou à Cachoeira (futura Estrela do Sul), e ao ver o quartel vazio, botou fogo nele, e, em muitas casas do povoado, de aliados do delegado patrocinense. Foi poupada apenas a casa do padre.

 

... NINGUÉM VIU O JUIZ... – Dr. Joaquim Caetano Guimarães fugiu a pé para Patrocínio. Logo depois, foi transferido para a capital de Minas, Ouro Preto, onde faleceu aos 83 anos de idade. Nunca mais retornou à Cachoeira e Patrocínio.

 

... E O DELEGADO? – Francisco Vieira Bravo também não voltou mais à Cachoeira. Passou a residir definitivamente em Patrocínio, nas proximidades do Rio Quebra Anzol, onde morreu idoso.

 

PÉROLA HISTÓRICA – O que aconteceu em Cachoeira, distrito de Patrocínio, em 1852, quando a guerra resultou em dezenas de mortes e de feridos, é conhecido como o “Fogo do Vieira”. E os dois principais envolvidos juiz Joaquim Caetano Guimarães, irmão de Bernardo Guimarães, e o delegado de Polícia Francisco Vieira Bravo, estavam a serviço do município de Patrocínio. E residiam na Vila N. S. do Patrocínio. Tudo a ver com Patrocínio.

 

EPILOGO – Quatro anos depois, 1856, Cachoeira emancipou-se de Patrocínio e passou a ser denominada Estalagem.

 

FONTES – Jornal Revista do Sesquicentenário de Estrela do Sul em 2006 (crédito: Robson Vieira Guimarães, residente em Goiânia, Centro Nacional de Pesquisa...), Wikipédia, Floriano Peixoto de Paula (1962) e acervo do cronista.

 

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