DIA DE FOCA. A crônica de Alexandre Costa.

 Dia de Foca

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Kerlon craque que as contusões prejudicaram - Foto: reprodução


Por Alexandre Costa


Segundo tempo rolando, jogo difícil contra o Santos, a torcida azul começa a gritar: Kerlon, Kerlon, Kerlon!!! O recém promovido do júnior já estava conhecido por “inventar” o drible da foca, ainda nas categorias de base do Cruzeiro e da Seleção Brasileira. Eu estava atrás do banco de reservas do Cruzeiro, repórter de campo da Rede Hoje de Patrocínio, o preparador físico celeste aumenta a intensidade do aquecimento. 

Vejo de perto a ansiedade dele em entrar em campo. O time tinha Fred despontando como um dos maiores atacantes do momento... PC Gusmão olha para trás e aciona o jovem talento. Kerlon passa voando por mim para entrar no lugar de Wagner. 

Tenho na memória muito claramente o lance que viria a seguir. O Foquinha recebe a bola quase na linha lateral, “cava”, aplica seu drible e dá um chapéu em Wendel,  cruza para dentro da área, mas a zaga Santista tira. Idos de 2005, num jogo épico com uma vitória impressionante de dois dos maiores clubes do Brasil uma “Foquinha” chamou a atenção.

É legal a referência, pois no jornalismo o estudante é assim chamado. Algumas explicações dizem que “o foca sempre entra numa fria”, “aprende rápido a realizar pequenas tarefas em troca de poucas sardinhas”, “fica boiando o tempo todo”, “ele tem um ar puro, inocente”. Uma possível linha de raciocínio é que “foca” vem da palavra latina “fócula”, utilizada para designar “ignorantes próximos do poder e subservientes ao extremo”.

O certo é que Kerlon era mais ou menos isso. Ele entrava para se divertir e enlouquecer a nação azul, sem se importar muito com o que viria a seguir. Cada drible motivava o Mineirão a estremecer por causa da China Azul.  Mas, o nascimento de Kerlon para o futebol mundial ficou marcado num clássico em que o Cruzeiro humilhou o time do Atlético em 2007. Ponta direita, Kerlon levanta a bola, parte pra cima do lateral Coelho que apela e dá no meio do jovem.

A arquibancada azul vai à loucura. Depois dos 4 gols do Cruzeiro, do show que o time estava dando, aquilo coroou o clássico. Foi um frisson impressionante. Nos corredores que levam aos vestiários, só se ouvia falar na jogada do Kerlon.

Essa história ilustra bem o que pode ser o futebol. Kerlon tinha tudo para jogar em grandes clubes do mundo, aplicar seus dribles pelos gramados europeus, em times de ponta. As lesões não permitiram. Fica um pouco de frustração, porque torci por ele. Foi emocionante trabalhar nesses dois jogos e poder ver de perto essa jogada.

Ao Kerlon, meu respeito. Uma pena perdê-lo para as contusões. Apesar de ter jogado em muitos clubes e rodado o mundo, ele merecia mais.